domingo, 27 de maio de 2018

diálogo de mudos

«Que linguagem é a tua, ó mar?»
«É a linguagem da eterna pergunta.»
«Que linguagem é a tua resposta, ó céu»
«É a linguagem do eterno silêncio.»

Rabindranath Tagore, in, A Asa e a Luz, Assírio & Alvim

Piratas

E no entanto, não sabemos nada e a biblioteca está vazia. É que a pirataria, embora receba alento da história, só aspira a livrar-se dela. Quando os flibusteiros se fazem ao mar não será que fogem à todo o pano da história? Trocar a terra pelo oceano não é uma decisão insignificante: implica despedir-se da cidade e da sociedade, do discurso do método, do tempo das clepsidras ou dos relógios, das escalas nos portos, do esquadro, da colher de pedreiro e do compasso, das fábricas e dos campos, do código civil e dos arquivos, dos antepassados, das crianças, do passado e do futuro. E pressupõe substituir-se o ambiente em que se nasceu por outros ambientes menos conhecidos: o espaço vazio e circular onde o homem ainda não traçou as suas geometrias e as suas cidades, o indiferenciado, o tempo sem costura da lua e do sol, a paisagem lagunas do início do mundo ou da sua conclusão, o ciclo das estrelas no céu, a roda do eterno recomeço e do Grande Ano. É isso que balbucia a tentação pirata;

Gilles Lapouge, in, Os Piratas, Antigona

Pária do mar

O amor é apenas um dos mil nomes da guerra. Fizemos a vontade aos Homens: assinámos o armistício. Dividimos o mar em duas incompletas metades e cada um reinou sobre a sua sem jamais olhar os limites da fronteira. Então, livre do espartilho dos sonhos, revelou-se a nossa verdadeira natureza. Tornei-me Pirata. Fizeste-te Pária do mar.

sábado, 26 de maio de 2018

Vida tão estranha



A gente vive na mentira,
já não dá conta do que sente 
Antes sozinha toda a vida 
do que ter 
um coração que mente 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Da dignidade

Felizes os que sabem aceitar o desprezo com condescendência, porque deles é o reino da dignidade.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Do pragmatismo

Lembrar-nos, lembrar-nos sempre, que, para não lhe enriquecer a morte, depois de enterrar a espada no coração é necessário recuperá-la.

domingo, 13 de maio de 2018

Os rapazes só não choram porque não conseguem


Num qualquer outro maio

Não sei há quantos anos foi. Depois desse dia, deixei de contar os seguintes.
O mar devolveu-me um homem que, afinal, tinha morrido, fazendo de mim a mais idiossincrática das viúvas.
Há muitas formas de se morrer para sempre. Pelo menos tantas quantas as formas de se matar alguém. Deixar de respirar não é a pior de todas.
Procurei-lhe um resto de vida nos olhos, na voz, nas mãos, no andar. 
Soprei-lhe nos lábios um grito de memória. O seu fantasma ergueu-se do corpo e dançou comigo até ser dia.
Mas as manhãs são sempre lúcidas.
Lacrei o coração no último abraço que dei ao homem morto.
Devolvi ambos ao mar. 
Não gosto de mortos.
Nem de corações.

sábado, 12 de maio de 2018

Gostar

Mas o que é gostar, perguntamos nós, entre o muito gostar e o nada gostar está o menos e o pouco, e não chega escrevê-lo para sabermos que partes de sim, de não e de talvez comporta tudo aquilo, seria preciso proferi-lo em voz alta, o ouvido capta a vibração última, capta sempre, e quando nos enganamos ou nos deixamos enganar é só porque não demos ao ouvido ouvidos suficientes.

José Saramago, in, História do Cerco de Lisboa, Porto Editora

Os rapazes não choram


sexta-feira, 11 de maio de 2018

Quanto tempo o tempo tem

A ampulheta de vidro moído em cima da minha secretária conta um inteiro dia. Vinte e quatro horas. Chego a tempo de ver cair o último átomo e de a voltar ao contrário para que a vida não se suspenda no avesso do tempo. 
O tempo já só me interessa enquanto unidade de medida de outras coisas: Das estórias. Quantas estórias serão dois anos? Ou do amor, por exemplo. Quanto tempo demora esquecer um homem? 

- Cinco dias, diz-me a ampulheta.

 Parece-me um prazo razoável. 
Cinco dias ou a vida toda.   

terça-feira, 8 de maio de 2018

Desexílio

Quando, finalmente, os céus me enviaram uma pequena amostra de tempestade de verão, abri a janela para deixar entrar em casa o cheiro do exílio.
Mas, aqui, falta à terra molhada o travo do café.
As noites não têm densidade, não há aurora, as manhãs assumem a cor das tardes.
E esta moínha na alma são saudades do meu exílio.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Anjos

Não sabíamos nem supúnhamos que a vida tivesse peso superior à densidade do ar, ainda que do ar húmido, idêntico ao que se respira no topo da montanha de onde dominámos o mundo.
Ficámos ainda muito tempo depois da guerra dos homens, espreitando-os do nosso jardim de laranjeiras, vendo-os dividir entre si os despojos do ódio e do amor. Não os compreendíamos nem os invejávamos. A imortalidade ainda não nos pesava nas asas.
Quando os Homens se rebelaram contra nós e empenharam a fé em troca da ilusão da liberdade, sobrevieram as trevas e regressámos às cavernas.
Incapazes de morrer, aprendemos, então, a aguardar.
Sabemos que uma manhã um deles há de sonhar-nos, fazendo-nos maiores, mais puros e mais loucos. Voltaremos a espreguiçar-nos ao sol, a atravessar os mares, a comandar os ventos e a desprezar os Homens.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Grandes Filósofos

Só precisamos de uma coisa para estar vivos...
De um coração que bata.
Quando o coração é ameaçado, podemos ter uma de duas reações:
Ou corremos,
Ou atacamos.

De um monólogo da Anatomia de Grey

domingo, 29 de abril de 2018

A crónica da verdade






Pelo Manel Mau-Tempo, o Pirata cigano.

Contra-informação

Aqui.

sábado, 28 de abril de 2018

Diário de Bordo

Deixar o navio Aleph nas mãos da Palmier Encoberto e ir de férias para Tortuga brincar aos namorados com um capitão da Disney não foi uma das ideias mais brilhantes que já tive na vida. 
Encontrei uma tripulação intrépida mas desmoralizada e o navio transformado num estaleiro que é a réplica infernal da grande obra, em que abundam chãos que não cabem no convés e foram construídas bonitas escadarias de mármore para lugar nenhum. A culpada estava escondida no porão, coberta por projetos de arquitetura e revistas de decoração. Andhrimniir, o cozinheiro Viking, recebeu-me num pranto e quando conseguiu deixar de soluçar, revelou-me que a capitã interina o obrigou a cozinhar coisas como soja e servir bagas de goji. Disse-me, até, que há mais de dez dias que não o deixam matar um ser vivo. Fui dar com os ex presidiários amotinados num bote fora do navio, onde fazem greve de fome há várias semanas, em protesto contra os desmandos da capitã interina. Os poetas, encontrei-os mais deprimidos e escanzelados do que o habitual, torturados pela incapacidade de produzir metáforas debaixo do constante ruído das obras. Giulliano, o Pirata Italiano, apaixonou-se por Palmier Encoberto e vive agora no cesto da Gávea, onde berra odes ridículas ao amor. Os bloggers nao os vi. Aos sábados nunca ninguém os vê. Álvaro de Campos sonhava o mesmo coma alcoólico em que o deixei.
Desde o dia em que parti, fui entretanto informada, o único assalto que estas almas fizeram foi aos cofres do meu navio que, esvaziados pela administração ruinosa, não têm o suficiente para nos sustentar  por uma semana. 
Sento-me agora à mesa do que sobrou da sala de crise, onde alguém mandou instalar um jacuzzi que não funciona, e faço aquilo que sempre faço diante de uma dificuldade extrema: reflito sobre aquela estupidez do mandamento do não matarás e tento dormir uma boa soneca. 

Tortuga

Quando o índigo mesclou o azul do fim de tarde, quando no horizonte surgiu a sombra da lua, quando as gaivotas começaram a formar na praia o seu esquadrão e eu baixei a cabeça para que Jack Sparrow me lavasse os cabelos, a paz arrefeceu-me o céu da boca e soube que era chegada a altura de partir.
Jack também o soube. Entrançou-me o cabelo ainda molhado, deu-me um beijo na testa e assegurou-me, à boa maneira Pirata, que a mesma estrela que me haverá de devolver a casa alumia a linha que nos une.
Então, debaixo dos vestidos e das flores e das pérolas encontrei a minha velha espada, encomendei-me à lua cheia e iniciei a viagem de regresso.
Sozinha, como é de metade sorte e de outra metade fado.



sexta-feira, 27 de abril de 2018

9 crimes e meio

Pois se tantas foram as vezes que traí a jura,
se cuspi no sangue que escorreu do pacto,
se lhe escondi no coração a espada,
se ceguei todos os olhos da hidra,
se dancei no sepulcro da vítima,
se lavei o veneno no riacho da aldeia,
se ateei o fogo aos celeiros da fome,
se roubei as vísceras à própria bruxa,
se azedei o leite no peito das mães dos deuses,
Porque não haveria de matá-lo, uma outra vez mais?









terça-feira, 24 de abril de 2018

Amplificador do silêncio

Quando os mares se fecharam
e as ilhas se inundaram
e tudo ficou submerso,
sobreveio o silêncio.

O silêncio amplificado
na tua boca fechada
e o meu corpo
de falsas escamas
a bater de encontro ao vidro
do aquário.
– Esse túmulo que te enfeita
as paredes da sala.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Doomed from the start


A esperança é a trela da submissão

E tu, Pandora, que tão bom serviço prestaste à humanidade ao abrir esse baú de onde se soltaram todos os bens e todos os males, não saberias tu, desgraçada Pandora, dar um pontapé na caixa para que também a esperança se perdesse entre os homens e deixasse de ser património divino? Penhor, chantagem, açaime e trela administrado por deuses? De que nos serve, Pandora, sermos senhores do bem e do mal, possuidores do amor e do ódio, se é dos deuses a esperança e se a usam para nos acorrentar?

(O título pertence a Raoul Vaneigem)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

voar

Quando me perguntou se era feliz, por vergonha, embaraço ou piedade, menti muito e sem culpa.
Trago as asas enfaixadas sob a camisa de seda de alta costura e doem-me nas articulações da cobardia. Às vezes, uma ou outra pena escorrega-me pela manga e assoma à linha dos pulsos. Já fui obrigada a engoli-las, entre duas colheradas de sopa fria, para não incomodar os comensais dos restaurantes de luxo onde ele me senta à força. Os porteiros fingem não ver a corcunda de asas dobradas e à saída, grata, pago-lhes em lágrimas de prata a discrição profissional. 
Quando os dias têm mais horas e a noite me parece mais escura, solto as fitas das costelas e passeio-me na sala, nua, de asas abertas. Ele desvia o olhar e comenta a deformidade da sombra na parede como se de uma ilusão de ótica se tratasse. Finjo que sim. Os espelhos, voltei-os ao contrário para que não me traíssem. 
Mas hoje, por descuido, alguém deixou aberta a porta da varanda. 
As minhas mãos já alisam o frio da noite e os pés procuram o ponto de equilíbrio do salto. As asas, soltas, soltas, soltas, fizeram-se para voar. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Piratas mortos não contam estórias


Pesos

Ao esquecimento que Borges dizia ser a meta, também eu cheguei antes.
Não vi a marca que creio não ter sido desenhada no chão, nem fita vermelha que se rompa de encontro ao peito. Não ouvi fanfarras, nem isoladas palmas. Passei por esse portal de olhos fixos numa distração qualquer, gesto que sempre foi a minha maior desgraça e a minha maior sorte. Uma manhã igual a todas as outras, o esquecimento, de boas contas, levou o que tinha a levar e restituiu-me a liberdade. 
Pesa tanto quanto a memória que a resgatou.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Quando a chuva se for embora

Contei sete luas pelos dedos dos pés.
Era uma noite quente num dos telhados de Lisboa
mas depois vieram o vento e o frio e a chuva, por esta ordem.
Os telhados ficaram desertos, a escorregar sozinhos,
e nós não chegámos a deitar-nos sob a luz da lareira acesa.
Quando a chuva se for embora, irás com ela.
Para que nada distraia a primavera.

Diário de Bordo

Querida tripulação:

Não é que a bravura, a intrepidez, as calças justas debaixo dos casacos de missangas bordadas e o lenço encarnado a cobrir-me os cabelos não me fiquem bem. É que oito anos capitanear um navio Pirata, oito anos à cabeça de uma tripulação de delinquentes, criminosos e poetas, que é tudo a mesma coisa, oito anos a planear e a praticar o saque e a espada, oito anos a comer a comida de Andrimnir, o cozinheiro Pirata, a acordar com os uivos de Polly, o papagaio, a driblar os desamores de Giulliano, o Pirata Italiano, a conter os motins dos ex-presidiários, a tentar manter sóbrio Álvaro de Campos, ele mesmo, oito anos neste navio, dizia, sem secador de cabelo, sem vestidos de seda, sem sandálias de solas vermelhas, sem uma boa maquilhadora e, por último e não menos importante, sem sequer poder namorar, fizeram com que, em suma, me tenha farto de todos vós.
Foi imbuída desse bom espírito que aceitei o convite de Jack Sparrow para passar uns regeneradores tempos num estúdio da Disney e é lá que tenho estado desde então. Não vos escrevi antes porque tenho estado demasiado ocupada a contemplar perfeitos ocasos pintados em papel crepe, com uma mão num cocktail lilás e a outra na mão do Jack.
Não sei quando volto, mas deixei os comandos do Aleph entregues à grande Pirata Palmier Encoberto e tenho a certeza que está tudo bem. Vi que escreveu um diário de bordo, certamente a contar as glórias da última campanha, mas aqui, nos estúdios da Disney, há links que se se recusam a abrir.
Obedeçam-lhe como me obedeceriam a mim.
Muaaaahhhhhh

  

quarta-feira, 28 de março de 2018

Notebook

O meu amigo chegou e trouxe-me um notebook. Pensei que seria um objeto útil para depositar a saudade. Há pessoas que nos faltam tão por dentro que temos de esquecer a ausência. Um assassino ensinou-me, um dia, que é um ato de inútil masoquismo fixarmos o pensamento no que de antemão sabemos que nos trará tristeza. É por isso que prefiro só pensar no meu amigo nas duas horas que antecedem um nosso encontro. Não lhe disse que as páginas do notebook serão insuficientes para que, até à próxima vez, nelas caibam os caracteres da falta. Seria redundante. 
Um dia partiu para um país cujo nome me recusei a aprender, convencida que recusando os signos da sua nova vida renegaria a ausência. O nosso mundo encolhe quando nos separamos dos amigos. Naquele ano o meu encolheu demasiadas vezes. Disse-me que pensa em mim sempre que está em Istambul, cidade onde nunca estivemos juntos, mas onde me consegue ver a comprar quinquilharias no bazar ou a beber chá de menta sentada numa almofada. Percebi que o meu amigo segue um método mais evoluído do que o do assassino que me ensinou a não sofrer. Descontextualizar as pessoas é a melhor forma de as levarmos connosco. E, assim, fazer com que as saudade caibam todas dentro das páginas de um notebook. 

terça-feira, 27 de março de 2018

A noite que nunca acaba

Dizem que correr liberta o espírito. Não há nada que não faça para me ver livre do meu. Depois do quinto quilómetro, o rio, que no início era uma língua de prata a encomiar o céu, transformou-se no fio de lama que o estrangula. As pernas revoltaram-se contra o processo de liberação do espírito e o próprio perdeu-se, fixado, insistente, na tormenta de um pensamento mau. O corpo dobrou-se ao peso. 
Foi então que, pela manhã, entraram os primeiros acordes da música. E o espírito regressou a casa e a boca, involuntariamente, abriu-se num sorriso que eu queria pintar em mim para sempre, e as pernas correram ligeiras por cima do rio que foi o mar que nos separa. 
Foi assim, bem o sei, que mil vezes me arrancaste das profundezas do Hades. Aqueronte nada pode contra a força da música que é como se fosse o meu nome nos teus lábios. Mil vezes morri e, imortal, mil vezes me trouxeste à tona da caverna que é o inferno dos que amaram. Mil vezes me esqueci e mil vezes me lembraste. Deste-me a história e deste-me a canção. E esta é a noite que nunca acaba. 



segunda-feira, 26 de março de 2018

Achados

O remoto rei dos corvos 
Edgar Allen Poe,
deixa cair do seu bico, 
no centro de uma biblioteca, 
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia, 
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee», 
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema 
não tem outro precursor 
a não ser a fome;
nem outro seguidor 
a não ser o crime.


Golgona Anghel, Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim

Jet lag emocional

Tantos foram os estados que atravessei e a tão grande velocidade se sucederam que passsei a sofrer de jat lag lag emocional.

domingo, 25 de março de 2018

Mas no céu não conhecemos ninguém...



“That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.”

A Flor, aqui, a explicar porque não tem amigos. 

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sonhos

Sonhei, ou quis sonhar, que Alah é quem mais sabe, com essa encosta de vinhas que se estende até ao mar. Vi uma vez mais a enorme lua refletida nas águas negras do mar-chão e as mesmas estrelas que guardei tatuadas na íris. Às vezes, num segredo que guardo de mim própria, quando o sono distrai o porteiro deste mundo, regresso à noite que pariu todas as noites que se lhe seguiram. À tarde que a antecedeu, bem sei, nem em sonhos poderei regressar. No instante em que a culpa se forma, perde-se, para todo o sempre, a capacidade de recordar a inocência.

Radialistas


quinta-feira, 22 de março de 2018

Oferecem-se Haikus


Achei que era um bom dia para voltar a oferece haikus do Bashô (e outros que talvez nem tanto)
Diga um número de 55 a 296 e receba um haiku.

terça-feira, 20 de março de 2018

raízes

Passei incontáveis minutos a observar o processo de crescimento das raízes no vaso de vidro da planta suspensa em água. A resiliência é o meu milagre preferido. Se fecharmos os olhos e o dia não tiver sido péssimo e tiver feito um pouco de sol e alguém nos tiver oferecido uma música nova ou se tivermos encontrado uma metáfora aceitável num poema, ou num cartaz publicitário, ou mesmo entre duas pedras junto ao rio, se o dia não tiver sido péssimo e fecharmos o olhos, dizia, podemos acreditar na resiliência, essa, que a natureza jura que, estatisticamente, também há em nós.
E então saberemos que as raízes continuarão a crescer mesmo quando ninguém as observa.
E tudo estará bem.

Equinócios

Às 16:15 horas de hoje, mais segundo, menos segundo, decidiram os Homens, chegou a primavera.
Não espanta, por isso, que ainda traga os restos do inverno colados aos ossos.
É preciso fechar as janelas ao vento norte, ajeitar os pés ao raio de sol, sacudir um resto de gelo do coração, deixar secar as gotas de chuva das pestanas, abrir as asas à clepsidra e aceitar a renovação.
Valha-nos as estações para nos lembrarem que o tempo, qualquer forma de tempo, ainda corre.

terça-feira, 6 de março de 2018

Biografia




Como dizer-te dessa estrada secundária por onde só passa quem procura alguma coisa que não sabe o quê; do seu asfalto gasto pelo pó do deserto que vai da berma até ao meio da faixa de direção unívoca; como dizer-te desse café de portas empenadas, por onde já só entra um pouco de vento que se anuncia no abraço do cristal das velhas estrelas penduradas no tecto; do salão vazio onde não se dança ao som da caixa de música avariada. Como dizer-te das cinco da tarde e das janelas de vidros sujos onde a luz dourada assoma à despedida. Das coisas que eram minhas e que foram, uma por uma, abandonadas. Como dizer-te de mim?

Diamond rings and Chevrolets

A Saga 

Pela Palmier Encoberto 

segunda-feira, 5 de março de 2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

Diamond rings and chevrolets

Escorreguei uma vez mais pela toca do coelho. Foi difícil encontrá-la na cidade. Entre dois prédios, escondida no chão, disfarçada de conduta de esgoto. Aqui, as portas são todas iguais e umas levam à miséria e outras à maravilha. Só descobres depois de teres descido muitos metros, de costas, com os pés no ar e os cabelos em desalinho. 
Caí diretamente na sala grande. A minha pouco discreta chegada não interrompeu a festa. Havia uma harpa que se tocava a si própria. O coelho das pressas dançava um tango melancólico com a lagarta azul e nenhum dos dois olhou na minha direção. O gato que ri mostrou-me os dentes de cima e apontou-me a sombra escondida atrás do reposteiro. Vi-lhe a forma do chapéu alto e lamentei a ausência da matéria. Um dos gémeos gordos veio dizer-me que também no wonderland há sombras vazias. E o outro ecoou vazias vazias vazias até que a palavra ganhou a consistência do gelo e as letras subiram desordenadas e fizeram um looping junto ao lustre de cristal pingado.
Fingi não me importar com o acidente do chapeleiro louco. Perguntei ao vazio onde estava a rainha branca e o gato, rindo-se, disse-me que estava dentro da rainha de copas.
- Nunca saberei se sou Alice ou a rainha de copas e quando ouço o "corteeeem-lhe a cabeça", tanto pode ser uma ordem dada contra mim como por mim. 
Então, a lagarta libertou-se das patas do coelho das pressas e instalou-se no meu ombro com o seu cachimbo de ópio.
- Aqui ninguém quer saber quem és; Depois apontou a sombra do chapeleiro louco escondida por trás do reposteiro e disse com um gesto dramático: - A verdade enlouqueceu aquele..
A harpa chorou um novo tango e eu estendi os braços na direção do reposteiro vazio. Ergueu-se a sombra do chapeleiro e enlaçou-me numa dança que durou um tempo que o relógio do coelho apressado se esqueceu de medir.
Mas depois, ouviu-se aquela frase, terrível, cujo som nunca sei se vem de dentro ou de fora e que esvazia o ar e arrefece os dedos e deixa um rasto de dor na garganta.
- corteeeem-lhe a cabeça.

quinta-feira, 1 de março de 2018

My love

Babe don't try to call
My heart is ticking and the show, just won't wait

It's strange, you couldn't see it my way, hey now go
I pray for you to fall
The spark, has died and now you're just too late 

A shame, you're knocking at the wrong gate, hey go home
Come what may, I won't give away

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, aces high and cigarettes
My love, faking all like Hollywood
My love, love, love

No way you'll see me crawl
Like a shark I'll be ripping you apart, and celebrate
With lots of champagne, you caught me on the wrong day, now you know

Come what may, I won't give away

My love, see me dancing in the rain
My love, no more whiskey and cocaine
My love, ending all forbidden fruit 
My love, love, love

Ashes to ashes, dust to dust 
No you can't amuse me, so leave you must
Ashes to ashes, dust to dust
If the spell won't kill you, your ego does

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, no more tears and no regrets
My love, time to lay the man to rest

My love, love, love

Amon Ra

Sonhei que atravessava o deserto sob o sol do meio dia. É a hora em que o inferno engole as sombras e regurgita o desespero. Do horizonte, não veio miragem que aliviasse a sede. Éramos o sol, a areia e os meus pés nus.
A chuva da madrugada e da manhã e da tarde e do anoitecer não chegou para me salvar do destino.
Há um deserto intransponível que todas as noites me espera. Tem a languidez do cão que sabe que o dono virá.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Cioran2

Cioran disse que esperar é desmentir o futuro.
Também poderia ter dito que é confirmá-lo.
Continuaria a ser verdade.

Cioran

Cioran disse que o limite de cada dor é uma dor maior.
Não é verdade. Só se sente uma grande dor. Todas as outras são tristes revisitações da primeira. É sempre a mesma, uma dor única, passada, revivida em réplicas imperfeitas.
Depois da primeira dor, todas as outras são mera candonga.