domingo, 22 de outubro de 2017

Fábula

que não sabia, noite, o cerne das palavras
rumo ao tempo, dia, quando o que fomos
era um campo resistindo, noite, ao avanço 
da luz pelo ombro do dia, perguntaste, noite,
Porque é que não pode ser sempre assim,
um dia, uma noite, e haver alguma verdade
nisto, Como por exemplo o quê, perguntei-te,
Como por exemplo nós, respondeu alguém,
mas então a noite já se misturava com o dia
e o universo amanhecia num leve tom diferente


Rui Costa, Mike Tyson para Principiantes, Assírio & Alvim

sábado, 21 de outubro de 2017

Ist mir mîn leben getroumet, oder ist es wâr?

Todas as albas trazem a sombra de muitas ausências que são uma única. Ao acordar, se estender os dedos, quase que ainda consigo tocar a água do Nilo, a lama do Assuão, uma concreta palmeira das Caraíbas, um dragão pendurado num prédio de Veneza, o botão do velho elevador a que demos um nome que já esqueci, os pés nus do Eros de Caravaggio, o portão de ferro de um palácio abandonado, o pássaro que veio morrer aos meus pés.
Como no verso de von der Vogelweide, também eu não sei se sonhei a minha vida ou se é verdadeira.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Esta tão doce banalidade

Veio a chuva, veio a noite, veio o tédio na curva da casa que já me pertence. 
O poeta dorme ao lado no livro fechado e gosto sempre de pensar no que diria sobre as porcelanas no armário. Tantos tachos, tantas velas, naperons bordados que são uma estaca espetada no peito de quem tanta diferença esperou de mim.
Não devemos ter vergonha de ser apenas isto. Uma mulher também se mede pelo número de faqueiros que tem à sua disposição. É um critério tão válido como outro qualquer. Acumulo mobiliário com a mesma alegria com que antes acumulei gotas de chuva. Não me interessa a deceção espelhada nos cantos dos lábios do poeta que dorme ao lado no livro fechado. Posso bem ter descoberto a receita para a sobrevivência: esta tão doce banalidade.

Escapar


domingo, 15 de outubro de 2017

Por um ciclone

Não sei, não sei a quem, juraria por deus se fosse de jurar e logo de jurar por deus, não sei a quem, dizia, pode agradar este bizarro outono de folhas que se acamam pelas vielas à miserável temperatura de trinta e três graus.
Preciso de um início de frio que devolva a coerência ao mundo. Ou, em alternativa, que as folhas desistam de vez de cair e declarem suspensa a estação. Preciso de uma rebelião organizada da natureza. De um ciclone que agite a cauda e arraste para o vórtice os restos putrefactos de um verão morto.
Estas folhas que hoje se passeiam sozinhas pelo chão e se enrolam em pés descalços, recebo-as com o asco da cuspidela que insulta a nostalgia.
Todas as noites abro as minhas janelas à espera do frio; pinto-me de índia e danço nua pela chuva, para, depois, acordar neste pesadelo de árvores que se esvaem à temperatura do corpo.
Não sei, juro por deus que não sei, a quem possa agradar tal desarrumação do universo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Finalistas

Recebi dois ou três recados do além em formato de poesia póstuma.
Antes de fechar o livro, marquei-o com um anjo, de olhos abertos, preso por um fio dourado. Pendurado no poema, o anjo de olhos abertos afasta os cães cegos pendurados no tecto que afligiam o poeta nas noites de febre.
O anjo zela o sono eterno do poeta que zelou pelos olhos abertos dos anjos.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

a língua das aves


Ouvi-o o mais atentamente que consegui. Compreendi todos os seus estados: o entusiasmo disfarçado; uma felicidade infantil; o medo animal e, por fim, a esperança no fundo da caixa. 
Porém, ocorre-me agora que não percebi uma única frase das que me dirigiu. 
Talvez, com o tempo, tenhamos aprendido a língua das aves. 
É supérfluo o vocabulário dos homens quando é sabido que lhes sobreviveremos muitos milénios e tudo o que precisamos ouvir é um fio de voz, preso ao coração. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Late for the moon

Ia alta a lua.
Demasiado para se fazer espelhar
Na água que escapou do rio.

Uma lua inatingível 
Sobre um leito de lama.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Caderno de encargos

Exigir-lhe-ei a lua, plena, a nascer sobre os velhos telhados da Lisboa nova. E a luz que têm as tardes que terminam no exato instante de um começo. Nem vento, nem brisa do deserto, nem um resto de areia entre os dentes. Exigir-lhe-ei o jardim de laranjeiras; a sombra ardente do início dos sonhos; a casa na árvore no cimo da avenida de tílias. Exigir-lhe-ei as linhas da mão; o mapa dos dias que não chegaram; a bússola que esconde dentro de peito. 
Tenho os dedos vazios, mas pagarei a crédito. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Espólio

Não sei quantas daquelas palavras me pertencem. Quantas me foram roubadas. Quantas ofereci. Quantas me acertam e quantas me falham. Quantas erradamente faço minhas. Quantas são oferenda que rejeito. 
Não sei e já não resta quem me possa ensiná-lo. 

sábado, 23 de setembro de 2017

Diário de Bordo

No final de agosto, soltámos amarras e navegámos os últimos dias da canícula em direção ao mar das Caraíbas. 
Diz-se que fugimos de um saque mal sucedido, mas, como sempre, há mais poesia na verdade. 
Esta intrépida tripulação pirata e a sua capitã, que suportam os círculos do inferno de Dante desde que nisso alguma vantagem imaginem, são incapazes de sofrer a nostalgia de um início de outono. 
Foi do abrupto anoitecer de setembro, das folhas das árvores na calçada, da chuva mansa que perfura os corações, do vento que corta noites sem lua, do definhamento que preenche o outono, que fugimos. 
Roubámos de manhã, gastámos pela tardinha, navegámos de noite e  chegámos a Tortuga a tempo dos festejos da reentrée.
Ainda as amarras não estavam presas, já polly, o papagaio pirata, guinchava recados da terra: 
Jack está cá.
Passaremos os próximos dias no conforto deste porto que sempre nos recebe com o morno abraço da normalidade. 
E não sei se já tinha dito, mas Jack está cá.

Uma marca no espaço

No universo já não havia um incluente e um incluído, mas apenas uma espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço, era um borrifo contínuo, densíssimo, um reticulado de linhas e traços e relevos e incisões, o universo estava rabiscado por todos os lados, ao longo de todas as dimensões. Já não havia maneira de fixar um ponto de referência: a galáxia continuava a dar voltas mas eu já não conseguia contá-las, qualquer ponto poderia ser o de partida, qualquer sinal em cima dos outros poderia ser o meu, mas descobri-lo não serviria de nada, de tal modo era claro que independentemente dos sinais o espaço não existia e se calhar nunca tinha existido. 

Todas as Cosmicómicas, Italo Calvino, Teorema. 

O princípio do fim

A primeira folha que se solta da árvore e é guiada pelo vento à esquina do outono.  Um cabelo branco que uma manhã brilha mais do que o espelho que o revela. O pelotão das aves que se atrasam no caminho do sol sobre uma ceara madura. A má palavra que se formou na boca amarga de um amante. O virar da página que antecede as letras do título do último capítulo. Sessenta segundos para a meia na noite nas vésperas de um solstício. A primeira madrugada de chuva de agosto. A nota inicial do compasso lento na tecla do piano. A nódoa que alastra no pano de puro branco. O roçar das asas da mosca na prata metálica da teia. 
Esse instante de indiferença em que esqueci o teu nome. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Lua Nova

Até o rio, cujo leito não lhe permite perder-se, procura na noite escura a sua lua. 
E é esta a minha frágil alegação de defesa.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Mãos vazias

Entrego as mãos à manicure com o cuidado de quem lhe deposita um Fabergé. Ela estica-me os dedos e olha-me com expressão inquisidora. Não adianta explicar que estas mãos te pertenceram. Que conservam a memória da forma das tuas. Que dentro delas coube o mundo. 
Há-de devolver-mas tal como as vê: vazias. 

Devenire

Não sei que lua existe lá fora. 
As minhas janelas abrem para as árvores e, se quisesse, daqui, poderia tocar-lhes as folhas. 
Não há céu nesta nova vida. 
Nem mar.
Só terra. 
Tanta terra. Tanta terra. Tanta terra.

sábado, 16 de setembro de 2017

Piras

Ardeu durante muitos dias, no centro da terra, a gigantesca pira onde incinerámos o amor. Queimámos em fogo lento o triste património de um inventário comum. Levantámos as mãos e sacudimos grilhetas estelares.  Dançámos sobre o mar e vimos, na alba, um céu cor de liberdade. Abraçámos o esquecimento e eram doces as suas asas. 
Diz-se que ensurdecemos aos nossos próprios nomes.

Mas depois vieram as chuvas e, juntamente com a suja lama de cinzas, sobrou tudo quanto não sabe arder: Os acordes que são a música. As metáforas da poesia. Uma constelação sazonal. O pesadelo que um homem desenhou em Altamira. O granito e o basalto. A fome. O fundo de todos os mares. 

Tanto quanto baste para que nunca nada se perca. 

Fábula Antiga

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada 
Com pupilas de Lince e olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou; 
Foi a Demência logo às feras condenada.

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou. 
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada, 
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os paços.

António Feijó, in, 366 Poemas que Falam de Amor, Vasco Graça Moura, Quetzal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

How to build a home

Tal como se diz de alguns mortos, que não sabem que o são, assim sucede com os recentes desexilados. É como ser fantasma ao contrário. Afantasmar. Desfantasmar. Infantasmar. Os dedos, de  súbito, conseguem empurrar as portas; os espelhos passam a ser habitados por uma expressão qualquer; o corpo materializa-se diante dos olhos daqueles que, entretanto, se esqueceram de que existimos. 
Até a casa é preciso aprender a possuir. Esboço nas paredes cada vez menos nuas os traços do meu coração, esperando fazê-la minha depois de impregnar de jazz os tecidos e de deixar a poesia ascender ao nível do pó dos candeeiros.

Reparei que, para os mesmos efeitos mas com aparente maior sucesso, o meu cão esfrega-se nas coisas. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Aniversários

Escondi as mãos dentro dos bolsos para que ele não visse um resto de solidão que ainda trago agarrado às unhas. Ambos fingimos o acaso, silenciando o facto de se terem passado exatamente cinco anos e uma hora. Os sessenta minutos, presumo, que durou a batalha interior. Um dia ganharemos a guerra. Eu terei as unhas limpas. Ele não terá bandeira alguma pela qual lutar. Seremos o que fica depois do esquecimento e a paz, como o previu a canção, abater-se-á sobre ambos. Estaremos mortos. 
Então, num qualquer crepúsculo, haverá um homem e uma mulher que são todos os homens e todas as mulheres e a eles pertencerá esta infinita, inexplicável, saudade. 

domingo, 3 de setembro de 2017

Dilemas

Como é meu hábito, chego depois de toda a gente ao maior dilema da vida adulta: Como arrumar os livros na estante? Depois de duas horas de indecisão cheguei a resultados inaceitáveis. Ponderei separar a não ficção, a poesia e a filosofia. Fiquei sem saber o que fazer com a mitologia e, por razões de justiça, pareceu-me bem juntá-la à filosofia. Quando me apercebi, já zizek dormia encostado à Bíblia. 
As dificuldades não se limitam às subespécies. É evidente que Borges em nenhuma circunstância pode ficar ao lado de Bukovski. Se arrumar todo o último na poesia, incluindo os contos, encosto Borges a Candance Bushnel, a senhora do Sexo e a Cidade. Optei por isolá-lo, acabando por perceber que a obra publicada em português não se adapta ao tamanho de nenhuma das minhas estantes. Não aceito espaços vazios em redor de Borges. Ocorreu-me juntá-lo às suas queridas Mil e Uma Noites ou ao D. Quixote. A primeira solução não serve porque tenho várias edições (todas más). A segunda não enche a prateleira. Outra dificuldade é a classificação de obras de autores como Plutarco, Ovídeo e pequenas bizarrias como as Viagens de Marco Polo. O que fazer com esta gente que não escreve nem ficção, nem não ficção, nem poesia? E os guias de viagem? Podem misturar-se com livros sobre viagens que não são guias? E os sul-americanos? Não seria preferível juntar o realismo mágico todo no mesmo canto? Pode o Asterix viver ao lado do Calvin?
Como é que as pessoas resolvem estes problemas?
Era tão mais fácil ser itinerante exilada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Butterfly

Antecederam-no duas borboletas brancas. Recordo-me vagamente de as ter visto, numa qualquer despedida, pousadas no seu ombro direito. Deitada em frente ao mar, assisti ao bailado hipnótico que desenrolaram diante dos meus olhos. No final da dança, descansaram por um instante no meu pulso antes de retomarem a travessia do mar. Também elas navegaram muitas milhas para chegarem a esta Ilha. 
Depois, como a bruma; o vento norte; um sonho de sesta ou um deus, ele veio e cobriu-me os ombros.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paraíso perdido

O que me quis dizer e não soube, ouvi-o, em eco permanente, durante muitas luas, como se houvesse fixado residência no interior de um búzio. O que me quis mostrar e não conseguiu, vim vê-lo e assombra-me agora os olhos. 
Se unir o que não me disse ao que não me mostrou obterei o esboço aproximado da perda. Foi nada menos que o mais próximo da perfeição a que podem aspirar os humanos.
Perder o paraíso - digo a mim própria para que a perda me seja tolerável - é, apesar de tudo, preferível a perder-nos no paraíso. É esse o destino dos que desafiam as limitações humanas.

Ah, o Algarve em agosto...


domingo, 27 de agosto de 2017

Desexilada

O exílio, é claro, não termina por decreto no dia em que regressamos a casa.
Virá a manhã de sábado em que morarei nesta cidade. Hoje, porém, ainda é apenas a cidade onde morei um dia.
Não é fácil ensinar-se geografia ao coração.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Colecionismo

As mudanças de casa são uma excelente ocasião para encontrarem objetos inúteis que foram, um dia, suficientemente  valiosos para justificarem o incómodo de os desejar, guardar e até esconder. 
Entre o pasmo e a nostalgia - creio até ter descoberto a pasmalgia, um estado de espírito ainda não catalogado  - abri um envelope cujo deslembrado conteúdo é uma vasta coleção de fotografias dos pés de um único homem. Entre muitas outras, dois pés assentes no convés de um barco e uma bandeira em plano de fundo. Um pé num horizonte azul com nuvens brancas. Dois pés submersos na água do mar. Dois pés pousados no mapa de um cartaz a anunciar um rally. Dois pés semienterrados na areia escura. Um pé pousado no braço de um sofá de riscas. Dois pés a tornearem o volante de um carro. Dois pés assentes numa mesa de mistura de som. Um pé junto do que me parece ser a janela de um avião. Outro pé ao lado de um copo de bushmills.  Os mesmos pés novamente submersos na água do mar...
Depois de inspeccionar as fotografias como se as visse pela primeira vez e de fechar o envelope, hesitei no destino a dar a tão bizarra coleção, angariada ao longo de vários meses. 
Os pés retratados há muito que sustiveram os passos da distância e os dias lavraram os vastos quilómetros de um esquecimento semeado.
Teria sido demasiado pragmático atirar o envelope para o lixo; dramático, dirigi-lo à morada do modelo; romântico, guardar as fotografias num álbum apropriado. Optei por devolvê-lo ao caos, enfiando-o ao acaso numa de várias caixas cheias de fotografias. 
É quase, espero, tão improvável reencontrar a minha bizarra coleção de pés, como voltar a amar o suficiente para, sequer, compreender a sua existência. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Verão

As gotas de água do verão escorrem apressadas pela garganta da clepsidra. É por ela que meço os dias, contando o tempo do fim para o princípio. As cores começaram a esbater-se a partir do meio do mês de agosto. As manchas de suor e sal nos sofás brancos do lounge contam estórias dos que já partiram. Pelo chão das ruas, à noite, há riachos de gelado derretido e sangria derramada que formam pequenas lagoas nos cantos. Deixam nódoas que durarão até às primeiras chuvas de novembro. Já não há, por esta altura, um único corpo virgem de sol. E até o mar parece exausto, fingindo  expulsar, desesperançadamente, aqueles que lhe colonizam os bancos de areia. 
Este não é um verão igual aos outros na minha estância balnear. 
É aquele verão que não verei morrer. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pinto as unhas dos pés de azul

Pinto as unhas dos pés de azul e penduro-me no trapézio. O sol tirou-me as estrelas mas sei que, se souber esperar, ser-me-ão devolvidas, inteiras, depois do anoitecer. As estrelas são corpos mortos. Tudo o que no mundo é amável já se extinguiu. Tudo o que é detestável também. 
Há o pó. Uma espécie de pó. Uma nuvem de pó.
Dormito de cabeça para baixo, pendurada no trapézio. Sonho um pesadelo com uma criança rechonchuda, a quem querem cortar os braços para a salvar da extinção. É um sonho de inspiração Rafaelita. A criança é, na verdade, um anjo que vi pintado num fresco a precisar de restauração. Creio que salvo os braços da criança antes de decidir, dormindo, que é apenas um pesadelo. Acorda-se, todos o sabemos, quando se identifica a origem do mal. No amor também. A racionalização extingue tudo. Até as estrelas. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anedota muçulmana

Vi um homem prestes a saltar de uma ponte.
– Não salte! – disse eu.
– Ninguém me ama – disse ele.
– Deus ama-o. Acredita em Deus? – perguntei.
– Sim – disse ele.
– É muçulmano ou não muçulmano? – perguntei.
– Muçulmano – disse ele.
– Eu também! – disse eu. – Deobando ou barelvi?
– Barelvi – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi azmati ou tanzeehi farhati? – perguntei.
– Tanzeehi farhati – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi farhati jamia ul uloom ajmer, ou tanzeehi farhati ul noor mewat? – perguntei. 
– tanzeehi farhati ul noor mewat – disse ele.
– Morre, Kafir! – disse eu, e empurrei-o.

Arundhati Roy, in, O Ministério da Felicidade Suprema.

Eterna fraude

São eternas as mãos do anjo de lata que ao amanhecer nos aponta o rio, ou o céu, consoante a direção que escolhe Eolo. É eterna a inconstância dos deuses e a sua avidez da mortalidade que pertence aos homens. E eterna é ainda esta velha memória das coisas dentro das células: um jardim, um tigre, uma pena, um búzio, certo olhar, uma onda que sempre embala a mesma rocha.

sábado, 5 de agosto de 2017

L-I-S-B-O-A

Deu-me, de presente de boas-vindas, a melhor prata que esconde no rio; três nuvens com o formato das copas das árvores; ruas razoavelmente vazias à hora da sesta. A casa cheirava àquilo que cheiram as nossas casas quando regressamos para as habitarmos: essência de culpa e esperança. Abri as portas devagar. Estive ausente tantos anos que é possível que os fantasmas se tenham cansado de me esperar. 
À noite, bem sei, Lisboa não me embalará o sono. Nunca dormi decentemente nesta cidade. 
Digo-lhe ao ouvido que, desta vez, não a abandonarei. Lisboa volta ao rosto para que não lhe leia o desdém. Mede-me a temperatura dos pés e sabe, como o sabem as mulheres muito velhas e os anjos, que nunca regresso para ficar. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Em quantos caixotes cabe a vida?

E uma vez mais, a minha vida útil dentro de caixas de cartão; a inútil em sacos pretos do lixo. E a sensação de que o que fica é o pouco que importaria conservar.

sábado, 22 de julho de 2017

Tangos

Quiseram os deuses, numa noite sem lua, essa frágil sombra projetada nas ruínas daquilo que foi um palácio. Moveu-se ao ritmo do tango, deslizou pelos restos das paredes e desfez-se na aurora.
Quiseram os homens a morte dos amantes.